19 de Novembro de 2009


Se aquele sonho não marcou a diferença, quero fazer com que marque. Algum dia, alguma coisa tinha de marcar a diferença.

Foi em tons de castanho. Com prédios a azul.
Eu e uma amiga procurávamos numa cidade grande ( penso que Lisboa ) um edifício onde se situava uma produtora de filmes, ou uma agência de publicidade, já não me recordo bem. A ideia era ficarmos lá a trabalhar, fosse no que fosse. No caminho passámos por prédios enormes, em tons de azul com o fundo escuro do céu. Passámos jardins situados em avenidas. Numa dessas avenidas avistámos um funeral. Devia ser uma grande família. Vimos uma senhora de meia-idade de negro, com rosto sofrido e que olhou para trás. Acompanhámos o olhar dela e alcançamos uma carruagem. Em cima e á medida que a contornávamos três cães mortos, pastores alemães, se bem me lembro. Deitado, mas com a cabeça levantada, altivo mas não arrogante, um gato. Noutra carruagem uma senhora de idade e um burro, morto. Mais atrás, saindo da igreja, o caixão com o morto, digamos que principal, um homem, suponho que o marido da senhora com quem inicialmente nos cruzámos. Por nós passavam vários eclesiásticos, o funeral devia ser importante, gente importante, que aparentemente morrera num acidente de viação. Debaixo de um comboio, pensámos nós.
Ao lado da igreja ficava uma escola superior, num edifício antigo. Vimos vários jovens trajados com os uniformes de várias escolas. E tudo isto ao fim do dia. Anoitecia.
Não havia meio de encontrarmos a tal agência, Perguntámos a várias pessoas, inclusive turistas. Por fim fomos a um café, frequentado por homens de aspecto duvidoso e interrogámos o rapaz do balcão, um rapaz simpático. Ele sabia, era perto.
Encontrámos o edifício. Era um edifício velho. Achámos normal, a agência era antiga, um nome já muito conceituado. Entrámos. O dono, homem gordo, mas rijo, estava a sair. Perguntámos se vinha da agência, ele respondeu que sim. Estava a fechar. Suplicámos que abrisse, uma vez que vínhamos de longe. Contrariado, consentiu. Subiu as escadas íngremes e nós fomos atrás. Lembro-me de lá em cima, faltarem degraus, pelo que tínhamos de dar um salto de um piso para o outro, quase dois metros de salto com um precipício enorme por baixo de nós. Pensei desistir. Nada justificava um sacrifício daqueles, a morte por baixo do nariz. A minha amiga, mais expedita, entretanto, já tinha dado o salto. Sei que para mim, que sofria de vertigens, tiveram de colocar algumas tábuas a atravessar o vácuo. Atravessei, já nem me lembro como. As tábuas devem ter caído e nunca mais devem lá ter colocado outras, pois só sei que a partir daí ficámos prisioneiras de um mundo que não esperávamos e que mudou definitivamente as nossas vidas.
Nós queríamos trabalhar naquele meio e quem sabe mais tarde progredir na carreira e trabalharmos na televisão ou no cinema. Para isso, estávamos dispostas a limpar o estúdio, fazer recados, o que fosse necessário desde que pudéssemos aprender com as pessoas para quem trabalhávamos. E foi assim no início até que tudo mudou. Aquela agência era pura fachada, escondia um gigantesco comércio de prostituição. E nós sem darmos por isso já lá estávamos mergulhadas até aos cabelos.
O que era inicialmente um espaço pequeno, tornou-se monstruoso. Era uma cidade autêntica, um espaço de prazer. Tínhamos jardins, salões, parques, os interiores eram cheios de corredores labirínticos, quartos fechados, madeira velha, sempre o cheiro a madeira velha.
Nós andávamos vestidas com roupas das odaliscas, mas sem nada por baixo. Ao princípio, gostávamos do que fazíamos, éramos diferentes, vivíamos sem preconceitos, com toda a liberdade e quem mandava e controlava éramos nós. Os que lá iam rendiam-se gulosos à nossa arte e indiferença. Tínhamos o poder de dar prazer, sem sair do nosso pedestal.
Certo dia, começo a questionar-me. Voltara a ambição de lutar pelo meu sonho profissional e este mundo em que vivia, cortava-me os movimentos. Foi nessa altura, que me apercebi que estava encurralada num local não existente na sociedade. Ninguém sabia de mim. Era como se tivesse passado para o lado de lá da vida. Dei por mim a olhar o céu. Sempre escuro. Sem estrelas. Lembro-me de uma frase incompleta ter ecoado no meu espírito. “ Dantes gostava de estar deitada e olhar o céu… “. Apercebi-me que tinha deixado de o fazer.
Um dia em que percorria os espaços da minha prisão e dava prazer aos que por lá andavam, passo por um jovem deitado na relva e só para me divertir vou para cima dele, nua por baixo da saia, aproximo-me da cara dele, mas nada faço. Rio-me com ar de troça, mas ele pouco se importa. Não estava ali para fazer o que os outros faziam. Só queria ver o que nós éramos, se realmente existíamos. Como seres mitológicos que ele pensou só existirem em epopeias, na imaginação de escritores. Não gostei, mas o efeito produzido em mim foi notório. Tornei-me mais humilde.
Numa cena, no escritório da suposta “agência”, ele pediu informação sobre as mulheres que lá trabalhavam. Havia estantes cheias de dossiers, cada um alusivo a uma prostituta. Ele pediu o meu dossier e pôs-se a escrever por cima das minhas fotografias obscenas, que por sorte ou não estavam dentro de uma mica. Alertei o director para o que ele estava a fazer, mas aquele não se importou. Pelos vistos, o rapaz era uma pessoa importante. Entretanto, entra uma das responsáveis pelo bordel e diz-me que, agora que sítios como aquele tinham sido legalizados e, enquanto tal legislação não mudasse, queria que eu, uma das mais experientes, desse formação a outras que iriam entrar… Nada respondi. A minha repulsa não foi grande. No fundo habituara-me a lá estar, sentia-me segura.
Fui atrás do jovem, entrei num corredor estreito com muitas portas, abri uma delas e vejo um rapaz numa cama com dois vultos por debaixo dos lençóis. Não cheguei a perceber se era ele. Acordei.

O meu mestre disse-me que já fui prostituta numa vida anterior. Tenho características de dupla personalidade. Vivo numa dualidade entre o “mau” e o “bom”, preciso de loucura, seja ela o que for. Mas devo cultivar a paz de espírito. Poderá haver paz de espírito num sítio como este do meu sonho. Porque me sentia eu bem? Porque não me senti angustiada? Só senti que poderia estar a perder uma outra parte da vida, só isso me atormentou por momentos…
Quero sempre estar no lado oposto do rio.

6 de Novembro de 2009


"Dar um passo, para mim já não era dar um passo; mas sentir onde trazia a cabeça. Compreende-se isto? Membros que obedecem um atrás do outro, e pomos a andar um atrás do outro; e acima da terra o porte vertical que temos de manter. Porque a cabeça, a transbordar de ondas e já incapaz de dominar os seus turbilhões, a cabeça sente abaixo de si todos os turbilhões da terra que a enlouqueceram e impedem de ficar direita. Vinte e oito dias desta influência pesada, deste amontoado de orgãos mal encaixados que eu era e aos quais eu fazia de conta que assistia, como se fosse uma grande paisagem de gelo prestes a deslocar-se"

Antonin Artaud
Os Tarahumaras

Memórias da Hungria... da minha cabeça na Hungria...

25 de Outubro de 2009

The Black Crowes



Mantiveram-se fiéis ao estilo inicial durante anos... sem estagnar. Admiro isso.

24 de Outubro de 2009



Dando um devido desconto à escolha da música... dá para ver a magnificência deste avião. É óbvio que se ele tiver de cair, cai. Mas que é lindo, isso é. O curso para Assistente já o tenho ( daí a minha ausência ). Resolvi investir em mais uma formação. O ensino desmotiva-me. Quero voar... Emirados, quem sabe?

11 de Maio de 2009



E porque não recordar esta campanha?